A cidadelha obscura deitava-se enquanto o céu arrefecia e se tornava escuro, em tons azul-violeta com luzes crepusculares à medida que a noite se adivinhava. Quando todos abandonavam os cantos mais ousados e as esquinas mais ocultas, Belo, de cigarro aceso nos lábios carregados de palavras surdas, dava vida ao seu vulto negro.Com o longo cabelo a cair-lhe sobre os ombros e pendendo-lhe para a face, ele avançava de máquina ao peito para a aresta mais soturna do bairro mais lúgubre da pequena cidade podre ...
Vivia para ver tudo aquilo mudar, crescer, talvez à velocidade que respirava um cigarro ou através de anos e anos de história registada em mais uns quantos livros mostrados às crianças, posteriormente, para que saibam os marcos do passado, sintam a evolução.
Enquanto aguardava esse utópico dia, voltava, uma noite atrás da outra, aos lugarejos mais recônditos para fotografar. Não usava cores, apenas o preto e o branco. Apenas o reflexo de uma dor profunda de um ego destruído, de um corpo desleixado, sequioso daqueles áureos sentimentos, daqueles gritos de revolta adolescente, proferidos aos sete ventos, sedentos de mensagens audaciosas dos putos convictos! Um contraste do seu imaginário com a mais pura das realidades ... a natureza corrompida, as crianças que na rua fumam mais um, o fado precoce esperando alcançá-los na overdose.
Embora também tendesse para esse caminho quando tudo perdia o rumo, quando a mais insignificante luz se apagava, sabia o significado do primeiro contacto com a droga nestas classes devastadas pela pobreza e falta de ajuda social. Tudo começaria com um «Prova!» e depois um «Queres outro?» ... Depois do ecstasy, da cocaína, da heroína, o final mais temido arrebataria a vida de jovens de escassas oportunidades ...
Fumava mais um cigarro enquanto vagueava pela ruela turva de cheiro a enxofre e doenças malignas. Num canto, mais um jovem a "meter p'rá veia", um outro a preparar aquela que Belo não sabia que seria a sua injecção. Fotografava cada um dos ocupantes. No entanto este último chamava pela objectiva de forma arrepiante, como que pedindo que todo o processo fosse gravado numa sequência de imagens. Belo, obedece! A sua presença, já habitual, não incomoda ninguém, pois todos olhavam para ele como mais "um daqueles tarados" que deambulam na penumbra. Começa, então, a captar a droga, o sumo ácido do limão que escorre até à colher suja, o isqueiro, toda a miscelânea a ferver, a seringa, o elástico que puxado pelos dentes aperta o braço magro e pisado do "junkie", o sorriso irónico, mais um "chuto" ... o prazer, a satisfação ... a satisfação, a dor, a corrosão, o abandono da vida mundana. O resultado de uma injecção letal, a pena capital, a morte.
Mais um corpo ao abandono, mais um entre muitos que ali permanecerão eternos sobre o negro do céu que desaba na hora fatal!
Apesar de não ter sido o primeiro que vira, Belo entrou, ainda chocado, em casa com tudo o que havia presenciado, com tudo o que estava preso ao negativo, ainda na máquina. Pousou-a na única estante que decora o estúdio sombrio, desajeitado, desarrumado onde vive (?) e estendeu-se ao comprido no sofá negro que vestia a carpete que por sua vez vestia o chão, onde havia improvisado uma espécie de sala. Deitado de barriga para cima, não conseguia evitar que as lágrimas lhe beijassem o rosto de pele ebúrnea, enquanto recordava tudo o que o assombrara essa noite. Adormecera por fim ...
Acordou era já alto dia com o sol que o espiava através das persianas, devolvendo àquele lugar um pouco de sorte! Ainda perturbado ergueu o corpo deitado e, como que de uma rotina se tratasse, pegou na máquina, atravessou o estúdio forrado de fotografias a preto e branco que formavam um padrão estranho, tumultuoso e dolorido, dirigindo-se à improvisada câmara escura. Certifica-se que o revelador está à temperatura adequada, toma atenção à hora antes de começar. Mergulha o papel no revelador com a emulsão para baixo, depois com uma pinça vira-o para cima. Agita a tina suavemente para que o papel não deixe de estar em movimento, 30 a 40 segundos e a imagem aparece. Cuidadosamente com a pinça, pega o papel passando-o pelo banho de paragem e por fim levando-o ao fixador. 10 Minutos "et voilá", Belo pode acender a luz ...
Após terminado processo e de resultados na mão, ele observa cada fotografia de forma minuciosa. Toda uma recordação que o aterrorizava desde a noite passada voltava num ápice à superfície da sua lembrança. Sentia o medo apoderar-se do seu corpo frágil e trémulo de ossos esguios ligeiramente desproporcionais. Ao passo que substituía a foto que via por outra e as repetia uma segunda ou terceira vez, as gotas cristalinas que haviam escorrido pelas faces de Belo voltavam a tomar conta dos seus olhos sem força, sem vontade, sem vida ... Chorava ao ver o seu rosto reflectido na cara desaparecida do drogado suicida. Os seus olhos inchavam em tons avermelhados, à medida que se apercebia do que tinha feito na noite anterior. A dor percorria-lhe as veias já sem sangue, o coração já parado, a mente já liberta, o corpo já morto ... - --
Sentia-se perverso, enojado daquilo em que se havia tornado. Tinha vontade de voltar àquele lugar, àquele sítio onde tudo o que é negro se torna azul-cordo-céu depois da injecção de droga que traz de volta o prazer. Queria morrer uma vez mais, de uma forma diferente! Matar-se! Não com a porcaria da droga, mas com um flash virado para si enquanto cravava a navalha no peito! Queria uma morte dolorosa, tamanha a vergonha que sentia de si mesmo ...
Percebia, então, que já não mais vagueava naquele mundo que julgava execrável e que era apenas uma alma penada que ninguém conseguiria vislumbrar. Vivia, agora, para ver a felicidade dos outros, que poderia ser a sua. Desejava morrer outra vez, doía demais viver naquele que era um caminho de penumbra no corredor entre a vida e a morte. Odiava ser um fantasma. Queria enterrar-se no mais fundo dos buracos da terra e ser devorado pelos mais esfomeados, devoradores caçadores minúsculos que lá viviam. Haveria forma de se morrer outra vez? Como matar um fantasma? Não sabia.
Belo ficara aprisionado naquele corpo diáfano ... (a mágoa, o arrependimento nunca mais o deixaram, sobreviveu apenas a vontade de ver tudo mudar, para preto ou para branco, mas nunca para azul).
quinta-feira, 10 de abril de 2008
quarta-feira, 26 de março de 2008
Quando o suicídio contemplado é apenas fruto mórbido do amor
A fuga à insanidade é constante. Julgar o que é normal ou anormal torna-se difícil quando a discórdia assenta no ponto fulcral da vida em sociedade.
Shelly contorcia-se na cama redonda do quarto, num apartamento emprestado para uma cura, a sua. Não iria chegar o dia em que a pequena de 18 anos se viria livre daquele tão maldito vício. Consumia-a todos os dias, três ou quatro vezes por dia. Não o conseguia evitar. Não alimentar esta necessidade era viver em vão para a rapariga de cabelo escadeado e encaracolado pelos ombros. A sua pele, antes branca, apresentava agora uma tez escurecida devido às horas fora de transe passadas na varanda ao sol. Mas tudo são pormenores desnecessários quando se sabe que a importância da vida de alguém se resume a um quarto de cama redonda. E lá estava ela, deitada de forma irregular - quase chegava a formar um desenho engraçado pelas saliências e depressões causadas pelo corpo sob o lençol -. Era branco, o lençol. Do tecto pendiam rendas, muitas rendas, vermelhas, lilases, brancas, sujas… que encontravam o chão num tremendo reboliço de panejamentos e pó. As paredes estavam rabiscadas de motivos bizarros. Corpos mutilados, andares escancarados, anorexias esqueléticas, palavras sem-ordem, fotografias rasgadas, mesclas de estados psicológicos unidos por linhas de lã juntas por nós defeituosos.
Nada fazia sentido naquele compartimento não fosse o corpo que lá se encontra. Shelly procurava controlar a vontade de uma nova dose, como tentava todos os dias. A fuga eram as paredes, o chão, o tecto, os lençóis rasgados, as unhas cravadas na pele, a garrafa de whisky na mesa-de-cabeceira, ou mesmo a borboleta estendida do lado da almofada já esfaqueada. Da vez que golpeara o travesseiro ainda não tinha chegado à fase física. Tal comportamento sugeria uma determinação niilista de pressionar o botão da auto-destruição. Os distúrbios emocionais e as esquizofrenias nervosas faziam-na ir para além dos limites do entendimento humano. Era especial. Ela. E os espíritos malignos não a abandonavam e ela não conseguia combater esta dependência. Toda esta atitude a encaminhava para uma morte prematura, fosse ela hoje, amanhã ou depois…
Por vezes a alienação fazia-a delirar. Desenhava pentagramas invertidos nas paredes e gritava para o infinito dizendo-se possuída por bruxas. Estava na hora de outra porção. Mais uma vez nada conseguira fazer para travar o vício que avançava para ela como que fugindo de uma morte não anunciada. Sem garrote nem agulha, sem mortalhas ou filtros, ela injectava-se e fumava a sua droga invisível, dominadora e persuasiva. Mais um estado de voo mental, pela pior acepção da expressão. Não voava sobre um ninho de cucos nem via espaços amplos decorados com motivos arabescos, carpetes longas e incensos queimados, criadores de efeitos quase alucinogénicos nos presentes. Pelo contrário, entrava num estado de êxtase psicótico desvairado, sem controlo mental ou racional. Agia por impulso e chorava. Ou rasgava. Ou mutilava, o próprio corpo. E é assim que está a ser hoje, agora.
São cinco horas de uma manhã que chora lágrimas de sangue que teimam em cair nos lençóis de Shelly. Cai o líquido vermelho do céu. Cai o suco da vida através do seu peito. Jorram-se gotas contínuas de sangue pela camisa de noite. A isto, eu chamo um acto falhado. Uma navalhada falhada, em cheio no coração.
Poucos segundos lhe restam, o final de vida precoce deixou-se ver hoje como lição final. O ponto final contemplando o suicídio.
Ironia das ironias, a sua droga era apenas um estado de depressão ao qual ela dedicava parte do seu dia, e mesmo assim lhe consumiu a vida, levando-a ao Purgatório dos juízos em que nem ela acreditava. A derradeira sentença não será favorável a uma nova vida de sanidade mental. Roubar a vida a nós próprios ainda é considerado pecado dotado de uma excentricidade maléfica. O caminho será o do fogo. Da maldição. Talvez o seu estado de morte cerebral já tivesse sido decretado em vida, naquele apartamento, naquele quarto. Uma nova era se iniciará, um novo apartamento, numa nova cama, porque os monstros que nos assombram são eternos como a dor profunda que sentimos ao perder um grande amor. Porque “o fogo que arde sem se ver” não se apaga e nós ficamos para sempre presos na dura realidade da solidão, do abandono. E todos parecem estranhos, até mesmo o mais sincero dos amigos, pois a única coisa que o nosso olhar alcança é o do desejo que ver o amor (dele) voltar. É querer sair do estado de paranóia e voltar a ser feliz.
14 Julho de 07
Shelly contorcia-se na cama redonda do quarto, num apartamento emprestado para uma cura, a sua. Não iria chegar o dia em que a pequena de 18 anos se viria livre daquele tão maldito vício. Consumia-a todos os dias, três ou quatro vezes por dia. Não o conseguia evitar. Não alimentar esta necessidade era viver em vão para a rapariga de cabelo escadeado e encaracolado pelos ombros. A sua pele, antes branca, apresentava agora uma tez escurecida devido às horas fora de transe passadas na varanda ao sol. Mas tudo são pormenores desnecessários quando se sabe que a importância da vida de alguém se resume a um quarto de cama redonda. E lá estava ela, deitada de forma irregular - quase chegava a formar um desenho engraçado pelas saliências e depressões causadas pelo corpo sob o lençol -. Era branco, o lençol. Do tecto pendiam rendas, muitas rendas, vermelhas, lilases, brancas, sujas… que encontravam o chão num tremendo reboliço de panejamentos e pó. As paredes estavam rabiscadas de motivos bizarros. Corpos mutilados, andares escancarados, anorexias esqueléticas, palavras sem-ordem, fotografias rasgadas, mesclas de estados psicológicos unidos por linhas de lã juntas por nós defeituosos.
Nada fazia sentido naquele compartimento não fosse o corpo que lá se encontra. Shelly procurava controlar a vontade de uma nova dose, como tentava todos os dias. A fuga eram as paredes, o chão, o tecto, os lençóis rasgados, as unhas cravadas na pele, a garrafa de whisky na mesa-de-cabeceira, ou mesmo a borboleta estendida do lado da almofada já esfaqueada. Da vez que golpeara o travesseiro ainda não tinha chegado à fase física. Tal comportamento sugeria uma determinação niilista de pressionar o botão da auto-destruição. Os distúrbios emocionais e as esquizofrenias nervosas faziam-na ir para além dos limites do entendimento humano. Era especial. Ela. E os espíritos malignos não a abandonavam e ela não conseguia combater esta dependência. Toda esta atitude a encaminhava para uma morte prematura, fosse ela hoje, amanhã ou depois…
Por vezes a alienação fazia-a delirar. Desenhava pentagramas invertidos nas paredes e gritava para o infinito dizendo-se possuída por bruxas. Estava na hora de outra porção. Mais uma vez nada conseguira fazer para travar o vício que avançava para ela como que fugindo de uma morte não anunciada. Sem garrote nem agulha, sem mortalhas ou filtros, ela injectava-se e fumava a sua droga invisível, dominadora e persuasiva. Mais um estado de voo mental, pela pior acepção da expressão. Não voava sobre um ninho de cucos nem via espaços amplos decorados com motivos arabescos, carpetes longas e incensos queimados, criadores de efeitos quase alucinogénicos nos presentes. Pelo contrário, entrava num estado de êxtase psicótico desvairado, sem controlo mental ou racional. Agia por impulso e chorava. Ou rasgava. Ou mutilava, o próprio corpo. E é assim que está a ser hoje, agora.
São cinco horas de uma manhã que chora lágrimas de sangue que teimam em cair nos lençóis de Shelly. Cai o líquido vermelho do céu. Cai o suco da vida através do seu peito. Jorram-se gotas contínuas de sangue pela camisa de noite. A isto, eu chamo um acto falhado. Uma navalhada falhada, em cheio no coração.
Poucos segundos lhe restam, o final de vida precoce deixou-se ver hoje como lição final. O ponto final contemplando o suicídio.
Ironia das ironias, a sua droga era apenas um estado de depressão ao qual ela dedicava parte do seu dia, e mesmo assim lhe consumiu a vida, levando-a ao Purgatório dos juízos em que nem ela acreditava. A derradeira sentença não será favorável a uma nova vida de sanidade mental. Roubar a vida a nós próprios ainda é considerado pecado dotado de uma excentricidade maléfica. O caminho será o do fogo. Da maldição. Talvez o seu estado de morte cerebral já tivesse sido decretado em vida, naquele apartamento, naquele quarto. Uma nova era se iniciará, um novo apartamento, numa nova cama, porque os monstros que nos assombram são eternos como a dor profunda que sentimos ao perder um grande amor. Porque “o fogo que arde sem se ver” não se apaga e nós ficamos para sempre presos na dura realidade da solidão, do abandono. E todos parecem estranhos, até mesmo o mais sincero dos amigos, pois a única coisa que o nosso olhar alcança é o do desejo que ver o amor (dele) voltar. É querer sair do estado de paranóia e voltar a ser feliz.
14 Julho de 07
segunda-feira, 10 de março de 2008
The Cure @ Pavilhão Atlântico
julgo-me lá ainda. de sapatilhas rotas. com pés de bailarina descoordenada. e eles tocam só para mim. e eu danço. eu eu rodopio. e eu levo os braços ao alto. e eu berro cantando os meus dezoito anos (des)alinhados com as melodias sonantes e as poesias tão em mim identificadas. eles tocam só para mim. só para mim. ascese. nirvana. só para mim. e eu elevo-me no ar flutuando por entre as luzes etrelares emanadas do palco. a noite ainda não terminou, e eu ainda estou à espera dele.
"The spiderman is having me for dinner tonight"
"The spiderman is having me for dinner tonight"
Alinhamento:
Plainsong
Prayers For The Rain
A Strange Day
Alt.End
The Blood
The End of the World
Love Song
A Boy I Never Knew
Pictures of You
Lullaby
From The Edge of The Deep Green Sea
Kyoto Song
Please Project
The Walk
Push
Friday I'm In Love
In Between Days
Just Like Heaven
Primary
Never Enough
Wrong Number
One Hundred Years
Disintegration

ENCORE 1
At Night
M
Play For Today
A Forest
ENCORE 2
Lovecats
Let's Go To Bed
Freak Show
Close To Me
Why Can't I Be You
ENCORE 3
Boys Don't Cry
Jumping Someone Else's Train
Grinding Halt
10.15 Saturday Night
Killing An Arab
quarta-feira, 5 de março de 2008
O IMAGINÁRIO É DOENTIO QUANDO DELES FAZ PARTE A P*TA DA REALIDADE
São flashes de eternidades rasgadas por arames farpados, manchados de sangue de outros que se derramaram em jazigos de dor insensível de mortos que revivem olhares mascarados de ternuras inexistentes.
São pedaços efervescentes em água turva oscilante sob pés descalços jogados nas pedras das calçadas sujas onde o ar não circulou?
São, porém, somos!
A mutilação gera o suicídio de corpos anormais em pessoas esquisitas.
É morte sinónimo de nascimento quando o sentido do obscuro (que tão belo torna os interiores românticos daqueles que se abandonam…) é deturpado pelos cérebros de plástico?
Ó dia que dais vida a noite!
Ó vida que fazeis ceder os mais fortes por estes se julgarem deveras fracos!
Por que tornais o imaginário digno apenas após o abandono da vida terrena?
Morramos por isso (?).
21 Dezembro 2006
São pedaços efervescentes em água turva oscilante sob pés descalços jogados nas pedras das calçadas sujas onde o ar não circulou?
São, porém, somos!
A mutilação gera o suicídio de corpos anormais em pessoas esquisitas.
É morte sinónimo de nascimento quando o sentido do obscuro (que tão belo torna os interiores românticos daqueles que se abandonam…) é deturpado pelos cérebros de plástico?
Ó dia que dais vida a noite!
Ó vida que fazeis ceder os mais fortes por estes se julgarem deveras fracos!
Por que tornais o imaginário digno apenas após o abandono da vida terrena?
Morramos por isso (?).
21 Dezembro 2006
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Não devias deveras
Um último sopro
A tua vontade
Desmedida
Procuras o medo
No fervor da minha ganância
E esperas
Saber o sabor do desejo inquieta-te
E desejares-me, move-te
Para nada
Por nada
Quero-te como não quero que me queiras
Querendo-me pelo que quero ser
E talvez não pelo que seja…
Mas conheces-me e
Ignoras-me quando te oculto o meu “Eu”.
Quando tento ser melhor
Ris-te de mim a gozo
E silencias-me com a tua boca.
Amas-me pelo que sou?
Não devias, deveras.
06 Dezembro 2006
A tua vontade
Desmedida
Procuras o medo
No fervor da minha ganância
E esperas
Saber o sabor do desejo inquieta-te
E desejares-me, move-te
Para nada
Por nada
Quero-te como não quero que me queiras
Querendo-me pelo que quero ser
E talvez não pelo que seja…
Mas conheces-me e
Ignoras-me quando te oculto o meu “Eu”.
Quando tento ser melhor
Ris-te de mim a gozo
E silencias-me com a tua boca.
Amas-me pelo que sou?
Não devias, deveras.
06 Dezembro 2006
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
A Carta escrita há muito que nunca leste e já não faz sentido
Às vezes gostava que não fosse.
É como é. Não será de ser assim. (eu espero). Desculpa-me os espasmos melódicos do que escrevo, mas a necessidade é crescente. Não sei bem do quê, mas é. Algo grande que me esmaga, me deixa pequena. E dói. Dói bastante. Odeio distúrbios emocionais, mas pareço não ser feita de outra coisa. E “mas” mais uma vez. É tão ridículo. Nem sei por que escrevo. É um problema de expressão, bem o sei. Queria que não fosse assim. Que fosse tudo mais simples. Sem tantos momentos de “não-sentir”. Acho que quero sentir menos e durante períodos mais alargados. Quero fechar os olhos e ver lugares distantes, idealizados por nós. Porque tudo não existe sem nós. Dupla negação. Positivo. Balelas. E escrevo, balelas. Hei-de conseguir escrever uma página sem deixar cair uma lágrima. Para ti. Por ti. Tenho sido fraca. Sou fraca. Não sei lidar com as pessoas nem com as coisas. Nem sequer lhes chego à essência que antes se mostrava. Talvez só uma essência importe, agora. A minha, não. A tua. Essência que anseio descobrir. Será como uma fonte de algo imaginário que se assemelha à perfeição. Não à tua. À minha. A minha perfeição para o mundo, a minha “equação que resume a “x” o significado da existência”, esconde-se, ou protege-se, em ti, disfarçada de uma certa timidez traduzida em mordidas acres de arrogância. Bem tento escrever de forma bonita e apercebo-me que embelezar um texto ajuda a não chorar. Pensamentos elaborados distorcem a sinceridade das opiniões. Para quem desconhece a realidade, julgá-los-á bastante sensíveis e emocionais. Para quem detiver o poder da verdade, saberá que na realidade as articulações bonitas só servem para atenuar o que ambiciosamente corre no nosso corpo e procede à metamorfose inconsciente. É nesse estado que escrevo. Estado de transição. Balançando entre a frieza calculista e o estado de psicose. Só assim sustenho as lágrimas que ameaçam borratar a maquilhagem que não uso. Não hoje. Hoje limpo-me. Lavo-me dessa magia transformadora. Cuspo-a. Hoje quero ser eu. (e elas querem escorrer). Que por meros segundos seja. Não quero a metamorfose, muito menos explorar as entranhas da minha anormal psique. A frieza, sacralizo-a para os momentos de rua. Para quando estou contigo. Quero não mais chorar. Não o mereces. Não o queres. Não faz sentido. Como o que hoje escrevo. Nada faz sentido. Não sei se um dia fez ou fará, mas hoje não. Porque hoje me sinto… não me toco mas sinto-me num estado de vigília dissimulado pelo cansaço. Surreal. Talvez seja isso. Hoje sou puro fruto do surrealismo. Um misto de sonho com todos os meus obscuros desejos iluminados pelo que escrevo. Surreal. Para além do real. Transcendente se assim eu o quiser. E tudo o que escrevo são balelas porque só eu entendo as frases articuladas sem discurso lógico. Desconexão. Como eu. Puro vórtice de confusões internas e conflitos apaziguados pela tua voz. Só. Quando mais ninguém sussurra. Quando no escuro prevalece a tua respiração profunda. E eu não me sinto lá. Sinto-me debaixo da cama a combater o monstro que lá se esconde para me assustar quando desapareces. Se neste quarto estás, tudo varia. O teu corpo “deitado” ao abandono na cama preenche as respostas que nunca descobrirei. São as partes de ti que nunca conhecerei mas que são minhas também quando estou contigo. É essa força interior, essa perfeição da tua essência. As tuas duas constituintes, a que conheces e a que tu mesmo não conheces. Não sei explicar. Continuo a embrulhar-me em novelos de palavras sem nada dizer. Com o tempo pensava que as coisas ficavam mais simples, mas desengane-se quem assim pensa também. O tempo é mais complexo. Se quiserem, é tão difícil como saber por que razão existe ou não deus. E se deus for tempo? A dificuldade assenta no facto de existirem falhas no ser humano que o impedem de ler para além do que lhe é mostrado. Acho que devia parar. Mas, e enquadrando-se no meu tempo em que tudo se autonomiza, também as minhas mãos o fazem e insistem em pressionar as pequenas teclas de aparência cúbica que ocupam todo o espaço da placa que se estende a sua frente. E se agora falássemos de sexo? Do sexo. Masculino. Feminino. Balelas outra vez. A isto chamavam os dadaístas de escrita automática (ou não, mesmo.). A sua influência provinha da psicanálise de Freud. E não, eu não estou a fugir ao assunto. Porque o mesmo Freud dizia que o ser humano já “nasce” corrompido e de inocente nada tem. Alegava ele que o todo que nos compõe, física e psicologicamente se automatiza e reage segundo estímulos sexuais. Acho que só estou a referir isto porque realmente admiro este senhor. Chega de sexo. Volto-me (novamente, se assim parecer) a ti, meu amor. Enquanto for “meu amor” não será “bebezinho” como chamava Pessoa a Ofélia. Agora que releio o que escrevi, percebo que nada importa na maneira como te trato. “A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte, nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas… essa palavra repetida ao expoente da loucura. Ora amarga. Ora doce. Para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura”. Não sei até que ponto concordo que o amor seja uma doença mas se o for quero então estar em permanente estado de doença avançada. E se este é o expoente da loucura, abaixo Moliére! Abaixo ele e o seu doente de cisma, abaixo ele e a esquizofrenia. Mas não deixem morrer a sua morte verdadeiramente encenada para o fim glorioso do amante que falece pelo seu amor. É aí que está toda a beleza das coisas. Amor = Doença. Morte = Eterno Amor. A loucura dos amantes não se fica apenas por Shakespeare e Romeu e Julieta. A verdadeira loucura passional será a minha. A que um dia farei para que todo o amor se alie à paixão no fogo eterno. Na transposição do mudo terreno para o NOSSO mundo. Seremos a Fénix e possuiremos a pedra filosofal do nosso tempo. O nosso amor perdurará por tempos desconhecidos onde ficará sempre o teu perfume doce aliado a minha fraca presença, pois se magnificência existe, a ti pertence. A ti e a toda a tua perfeição. A ti e a cada retalho teu, que adoro. A minha loucura és tu e não o amor. A minha obsessão és tu. O meu desejo és tu. A minha voz és tu. A minha vontade és eternamente tu. Chamem-me Blimunda, não quero saber. Mas serás Baltasar. E a minha vontade és tu. Tanta merda que já escrevi em tão pouco tempo. A linha de sentido perdeu-se há muito. Se escrevo e me refiro, falo de um ser que fui e já não sou. Mas é um registo autobiográfico. Nega-se constantemente à medida que me renovo. E nunca sou a mesma. Desculpa.
É como é. Não será de ser assim. (eu espero). Desculpa-me os espasmos melódicos do que escrevo, mas a necessidade é crescente. Não sei bem do quê, mas é. Algo grande que me esmaga, me deixa pequena. E dói. Dói bastante. Odeio distúrbios emocionais, mas pareço não ser feita de outra coisa. E “mas” mais uma vez. É tão ridículo. Nem sei por que escrevo. É um problema de expressão, bem o sei. Queria que não fosse assim. Que fosse tudo mais simples. Sem tantos momentos de “não-sentir”. Acho que quero sentir menos e durante períodos mais alargados. Quero fechar os olhos e ver lugares distantes, idealizados por nós. Porque tudo não existe sem nós. Dupla negação. Positivo. Balelas. E escrevo, balelas. Hei-de conseguir escrever uma página sem deixar cair uma lágrima. Para ti. Por ti. Tenho sido fraca. Sou fraca. Não sei lidar com as pessoas nem com as coisas. Nem sequer lhes chego à essência que antes se mostrava. Talvez só uma essência importe, agora. A minha, não. A tua. Essência que anseio descobrir. Será como uma fonte de algo imaginário que se assemelha à perfeição. Não à tua. À minha. A minha perfeição para o mundo, a minha “equação que resume a “x” o significado da existência”, esconde-se, ou protege-se, em ti, disfarçada de uma certa timidez traduzida em mordidas acres de arrogância. Bem tento escrever de forma bonita e apercebo-me que embelezar um texto ajuda a não chorar. Pensamentos elaborados distorcem a sinceridade das opiniões. Para quem desconhece a realidade, julgá-los-á bastante sensíveis e emocionais. Para quem detiver o poder da verdade, saberá que na realidade as articulações bonitas só servem para atenuar o que ambiciosamente corre no nosso corpo e procede à metamorfose inconsciente. É nesse estado que escrevo. Estado de transição. Balançando entre a frieza calculista e o estado de psicose. Só assim sustenho as lágrimas que ameaçam borratar a maquilhagem que não uso. Não hoje. Hoje limpo-me. Lavo-me dessa magia transformadora. Cuspo-a. Hoje quero ser eu. (e elas querem escorrer). Que por meros segundos seja. Não quero a metamorfose, muito menos explorar as entranhas da minha anormal psique. A frieza, sacralizo-a para os momentos de rua. Para quando estou contigo. Quero não mais chorar. Não o mereces. Não o queres. Não faz sentido. Como o que hoje escrevo. Nada faz sentido. Não sei se um dia fez ou fará, mas hoje não. Porque hoje me sinto… não me toco mas sinto-me num estado de vigília dissimulado pelo cansaço. Surreal. Talvez seja isso. Hoje sou puro fruto do surrealismo. Um misto de sonho com todos os meus obscuros desejos iluminados pelo que escrevo. Surreal. Para além do real. Transcendente se assim eu o quiser. E tudo o que escrevo são balelas porque só eu entendo as frases articuladas sem discurso lógico. Desconexão. Como eu. Puro vórtice de confusões internas e conflitos apaziguados pela tua voz. Só. Quando mais ninguém sussurra. Quando no escuro prevalece a tua respiração profunda. E eu não me sinto lá. Sinto-me debaixo da cama a combater o monstro que lá se esconde para me assustar quando desapareces. Se neste quarto estás, tudo varia. O teu corpo “deitado” ao abandono na cama preenche as respostas que nunca descobrirei. São as partes de ti que nunca conhecerei mas que são minhas também quando estou contigo. É essa força interior, essa perfeição da tua essência. As tuas duas constituintes, a que conheces e a que tu mesmo não conheces. Não sei explicar. Continuo a embrulhar-me em novelos de palavras sem nada dizer. Com o tempo pensava que as coisas ficavam mais simples, mas desengane-se quem assim pensa também. O tempo é mais complexo. Se quiserem, é tão difícil como saber por que razão existe ou não deus. E se deus for tempo? A dificuldade assenta no facto de existirem falhas no ser humano que o impedem de ler para além do que lhe é mostrado. Acho que devia parar. Mas, e enquadrando-se no meu tempo em que tudo se autonomiza, também as minhas mãos o fazem e insistem em pressionar as pequenas teclas de aparência cúbica que ocupam todo o espaço da placa que se estende a sua frente. E se agora falássemos de sexo? Do sexo. Masculino. Feminino. Balelas outra vez. A isto chamavam os dadaístas de escrita automática (ou não, mesmo.). A sua influência provinha da psicanálise de Freud. E não, eu não estou a fugir ao assunto. Porque o mesmo Freud dizia que o ser humano já “nasce” corrompido e de inocente nada tem. Alegava ele que o todo que nos compõe, física e psicologicamente se automatiza e reage segundo estímulos sexuais. Acho que só estou a referir isto porque realmente admiro este senhor. Chega de sexo. Volto-me (novamente, se assim parecer) a ti, meu amor. Enquanto for “meu amor” não será “bebezinho” como chamava Pessoa a Ofélia. Agora que releio o que escrevi, percebo que nada importa na maneira como te trato. “A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte, nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas… essa palavra repetida ao expoente da loucura. Ora amarga. Ora doce. Para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura”. Não sei até que ponto concordo que o amor seja uma doença mas se o for quero então estar em permanente estado de doença avançada. E se este é o expoente da loucura, abaixo Moliére! Abaixo ele e o seu doente de cisma, abaixo ele e a esquizofrenia. Mas não deixem morrer a sua morte verdadeiramente encenada para o fim glorioso do amante que falece pelo seu amor. É aí que está toda a beleza das coisas. Amor = Doença. Morte = Eterno Amor. A loucura dos amantes não se fica apenas por Shakespeare e Romeu e Julieta. A verdadeira loucura passional será a minha. A que um dia farei para que todo o amor se alie à paixão no fogo eterno. Na transposição do mudo terreno para o NOSSO mundo. Seremos a Fénix e possuiremos a pedra filosofal do nosso tempo. O nosso amor perdurará por tempos desconhecidos onde ficará sempre o teu perfume doce aliado a minha fraca presença, pois se magnificência existe, a ti pertence. A ti e a toda a tua perfeição. A ti e a cada retalho teu, que adoro. A minha loucura és tu e não o amor. A minha obsessão és tu. O meu desejo és tu. A minha voz és tu. A minha vontade és eternamente tu. Chamem-me Blimunda, não quero saber. Mas serás Baltasar. E a minha vontade és tu. Tanta merda que já escrevi em tão pouco tempo. A linha de sentido perdeu-se há muito. Se escrevo e me refiro, falo de um ser que fui e já não sou. Mas é um registo autobiográfico. Nega-se constantemente à medida que me renovo. E nunca sou a mesma. Desculpa.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
A queda implora as luzes faíscantes.
É fluorescente o tempo perdido nos passados glamorosos.
O nevoeiro sombrio perturba o real absorvido
Em momentos de ternuras enclausurdas em caixas quadradas de memórias.
São navalhas encerradas nas feridas dos corpos dormentes.
No meu corpo.
Ou na minha alma.
Visto o vestido negro, rendilhado de arames que rasgam a minha carne já em decomposição.
Arde na fogueira do esquecimento a resistente felicidade (?).
A paixão corroi o ser,
Desmembra as pesadas noções de vida.
As setas esvoaçam a meu peito mirado:
Eu vou cair,
Eu vou sangrar.
As lágrimas perduram na existência de nós
Que marchamos sob o som da guerra aliciante
De vitória já perdida.
Caminhamos em direcção ao vazio
Enquanto entoamos cânticos ruidosos
Na esperança de alcançar a outra vida.
Mas resta-nos a verdade.
A morte.
E os corpos afogados no dilúvio das lágrimas derramadas.
É fluorescente o tempo perdido nos passados glamorosos.
O nevoeiro sombrio perturba o real absorvido
Em momentos de ternuras enclausurdas em caixas quadradas de memórias.
São navalhas encerradas nas feridas dos corpos dormentes.
No meu corpo.
Ou na minha alma.
Visto o vestido negro, rendilhado de arames que rasgam a minha carne já em decomposição.
Arde na fogueira do esquecimento a resistente felicidade (?).
A paixão corroi o ser,
Desmembra as pesadas noções de vida.
As setas esvoaçam a meu peito mirado:
Eu vou cair,
Eu vou sangrar.
As lágrimas perduram na existência de nós
Que marchamos sob o som da guerra aliciante
De vitória já perdida.
Caminhamos em direcção ao vazio
Enquanto entoamos cânticos ruidosos
Na esperança de alcançar a outra vida.
Mas resta-nos a verdade.
A morte.
E os corpos afogados no dilúvio das lágrimas derramadas.
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